"Encontrando Nárnia em Fronteiras do Universo" – Parte 1

26 - Mar - 2009 por Administração Narnianos    25 comentários    Postado em: Artigos

Antes de começar esta coluna, quero dizer que antes de criticar a série Fronteiras do Universo, você deve ler a série toda e entendê-la por completo. Não basta ler determinadas colunas em blogs e ficar falando mal da série.

Aviso também que este artigo contém spoilers de Nárnia e Fronteiras do Universo…

A série Fronteiras do Universo é de autoria do escritor inglês Philip Pullman. Philip é ateu e, como toda pessoa normal, gosta de passar suas ideias através de seus livros. E, como com todas as ideias não normais, ele acabou sendo injustiçado. “Fronteiras do Universo” é uma série de fantasia, que pode inclusive ser equiparada às de J.R.R. Tolkien, Lewis Carroll, E. Nesbit e C.S. Lewis (segundo crítica do New Statesman).

A idéia e o nome da série (no original “His Dark Materials”, que traduzido livrimente é “Seus Materiais Negros”) são baseados em um livro sobre a visão cristã da criação do mundo (“Paraíso Perdido”, de John Milton). A série foi publicada pela primeira vez em 1995, com o título de “Northern Lights” (Luzes do Norte ou Aurora Boreal), na Inglaterra. Na versão americana, o título virou o famoso “The Golden Compass” (“A Bússola Dourada”). A série foi campeã de vendas, e se tornou rapidamente alvo de criticas da Igreja Católica, sendo condenada inclusive pelo jornal do Vaticano como livros que conduzem as crianças ao ateísmo. Claro que isso não passa de baboseira. Mas não tratarei desse assunto agora.

O segundo volume da série, “A Faca Sutil”, nos mostra o lado de um garoto de 12 anos que tem vários problemas, e desfoca a atenção total do primeiro livro. Novamente, somos surpreendidos pela escrita de Philip Pullman e,  em minha humilde opinião, este é o melhor livro da série. Já no terceiro livro, temos o desfecho. “A Luneta Âmbar” foi condecorada com o prêmio Whitbread de Livro do Ano (o primeiro livro infanto-juvenil a ganhar o prêmio), e assim como o prêmio conferido a “A Última Batalha”, foi uma homenagem a toda a série.

Philip Pullman não gosta da série de C.S. Lewis. E, creio eu, não gosta de muita coisa relacionada a ele. Pullman criticou o fim do livro “A Última Batalha” e criou a série Fronteiras do Universo como uma opção à série Narniana. Ambas são ótimas escolhas de leitura, diga-se de passagem.

Philip, apesar de não gostar de C.S. Lewis, leu várias obras dele, e isso é perceptível em todos os livros da série Fronteiras do Universo, e alguns outros livros dele, como “O Espantalho e seu criado”, que além do título traz em sua sinopse uma história super parecida com “O Cavalo e Seu Menino”. Mas a essência de C.S. Lewis está presente.

O contraste com Lúcia e Lyra (personagem principal, junto com Will, da série Fronteiras do Universo) é muito grande. Por exemplo, Lyra é uma menina mais esperta do que Lúcia, e menos inocente. É mentirosa, arteira, e quer sempre se dar bem nas coisas. Se embriagou uma vez com seu amigo Roger, e já foi vista com cigarro na mão, além de fazer um fuzuê na barca dos gípcios. Já Lúcia é uma menina mais inocente, confia nas pessoas, e tem um bom coração. Ambas são ótimas personagens, e no livro original de C.S. Lewis, Lúcia é Lucy.

L – L
U – Y
C – R
Y – A.

Os nomes de ambas as personagens principais começam com L e têm o mesmo número de letras. Mas é por aí que acabam as semelhanças.

Lúcia tem uma missão: salvar seu amigo Sr. Tumns. Lyra também tem uma: levar o aletômetro (aparelho desenvolvido para contar apenas a verdade, e destruido pelo Magistérium (que no livro representa a Igreja Católica) para que nenhuma verdade fora a católica fosse dita) para seu Tio. Ambas tem um relacionamento com um animal falante. Enquanto Lúcia tem um relacionamento com Aslam, Lyra tem com Iorek Byrnison: um urso de armadura.

Em “A Última Batalha”, os verdadeiros narnianos, os amigos de Nárnia, retornam ao mundo mágico para salvá-lo de um falso deus. A missão de Lyra é exatamente essa. Um falso deus, chamado A Autoridade, que é a autoridade do Magistérium, deixou o poder do reino dos céus com Metraton, que é Enoque (o personagem bíblico, mas agora em forma de anjo), e Enoque quer acabar com o livre arbítrio feito pelo Pó.

Assim como Confuso era usado por Manhoso em “A Última Batalha” para fingir ser Aslam, a A Autoridade e o próprio Metraton são exatamente a versão de Fronteiras para o Confuso.

Trechos fora de contextos são erroneamente usados para atacar a série, como você pode ler abaixo:

Ela [Lyra] é perseguida pela Igreja que a considera a nova Eva e quer matá-la, antes que ela repita o pecado original (isso, a libertação final está ligada a Lyra se envolver em uma tentação!) – trecho de esclarecimento de Sérgio Fernandes, da Canção Nova, sobre uma das passagens de “A Luenta Âmbar”.

A tentação não é nada sexual, adulta, ou que tenha a ver com o pecado original que conhecemos. Se você não prestar atenção, você nem sabe qual é a tentação. É um argumento sem fundamento.

Metatron, uma figura que fica entre a representação de um anjo supremo e muito poderoso e a figura de Deus Pai, é morto ao final da trilogia, atraído para uma armadilha feita pela Sra Couter e por Lord Asriel, que se unem para se lançarem no abismo e morrerem juntos. Pullman descreve ao final esta personagem:
“O Regente era um ser cujo profundo intelecto tivera milhares de anos para se desenvolver e se fortalecer, e cuja sabedoria e conhecimento se estendiam a um milhão de universos. A despeito disto, naquele momento estava cego por duas obsessões: destruir Lyra e possuir sua mãe. Antes deste combate final, Metraton havia dado ordem aos anjos que transportassem a Autoridade para local seguro. Quando os anjos deixaram a Montanha Nublada – o reino dos céus – furtivamente, a Autoridade foi avistada. Em vez de lhe dar um corpo de guarda de muitos regimentos, que só atrairiam a atenção do inimigo, tinha confiado na obscuridade da tempestade, calculando que naquelas circunstâncias um grupo pequeno seria mais seguro que um grande. Neste instante podia-se ver o interior da liteira: um ser indescritivelmente idoso. Ele não era fácil de ver porque a liteira era toda fechada com cristal que cintilava e refletia de volta a luz envolvente na montanha. Mas não escondia a decrepitude aterradora, de uma face encovada, mergulhada em rugas, de mãos trêmulas, de uma boca balbuciante e olhos remelentos. – trecho de esclarecimento de mesmo autor sobre “A Luneta Âmbar”.

De verdade, interpretando-se o texto, não se pode tentar relacionar uma coisa à outra. Metraton e A Autoridade são duas personagens diferentes, e vou grifar em itálico as partes que mostram isso, calando mais um argumento furado.

O Regente era um ser cujo profundo intelecto tivera milhares de anos para se desenvolver e se fortalecer, e cuja sabedoria e conhecimento se estendiam a um milhão de universos. A despeito disto, naquele momento estava cego por duas obsessões: destruir Lyra e possuir sua mãe. Antes deste combate final, Metraton havia dado ordem aos anjos que transportassem a Autoridade para local seguro. Quando os anjos deixaram a Montanha Nublada – o reino dos céus – furtivamente, a Autoridade foi avistada. Em vez de lhe dar um corpo de guarda de muitos regimentos, que só atrairiam a atenção do inimigo, tinha confiado na obscuridade da tempestade, calculando que naquelas circunstâncias um grupo pequeno seria mais seguro que um grande. Neste instante podia-se ver o interior da liteira: um ser indescritivelmente idoso. Ele não era fácil de ver porque a liteira era toda fechada com cristal que cintilava e refletia de volta a luz envolvente na montanha. Mas não escondia a decrepitude aterradora, de uma face encovada, mergulhada em rugas, de mãos trêmulas, de uma boca balbuciante e olhos remelentos.

O trecho em itálico refere-se a Autoridade, e não a Metraton. E não, eles não são a mesma pessoa, e Metraton não é Deus Pai.

E, leia como o autor descreve a figura intitulada Autoridade:
“A Autoridade, Deus, o Criador, o Senhor, Yahweh, El, Adonai, o Rei, o Pai, o Todo-Poderoso, todos esses são nomes que ele deu a si mesmo. Ele nunca foi o criador. Ele era um anjo como nós, o primeiro anjo, é verdade, o mais poderoso, mas era feito de Pó como nós somos, e Pó é apenas um nome para o que acontece quando a matéria começa a compreender a si mesma. A matéria ama a matéria. E busca saber mais a respeito de si mesma, e o Pó adquire forma. Os primeiros anjos se condensaram a partir do Pó e a Autoridade foi o primeiro de todos. Ele disse aos outros, que vieram depois, que ele os havia criado, mas era mentira. Um desses que vieram mais tarde era mais esperto do que ele, descobriu a verdade, de modo que ele o baniu. Nós ainda o servimos. E a Autoridade ainda prevalece no Reino e Metatron é seu regente”.
– Este trecho só faz sentido se lido com o livro. Logo, não adianta comentar.

Como podem ver, a série é um tanto quanto vista erroneamente por determinados grupos.

Na próxima parte da coluna comentarei sobre a Relação de “Deus x Aslan x Pó”, “Iorek Byrnison e Aslan”.


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25 comentários + Comente

  • O ‘pecado original’ não foi a desobediência. Foi a ansia de desejar ter conhecimento que lhe fora proibido.

  • Exato. :-)

  • [...] A Igreja Catolica fez bastante cencura nessa coleção e procurando pelas fotos da capa achei um bongl onde é feito um paralelo entre as Fronteiras e Nárnia Ron é fã da série Fronteiras do Universo e de As Crônicas de Nárnia e resolveu criar o texto pa… [...]

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