Semana CS Lewis: O pintor e a pintura celestial
De “O Grande Abismo”. Mostra uma cena de um pintor que acaba descobrindo que não pode mais pintar.
Em O grande abismo, C. S. Lewis vale-se mais uma vez de seu incomparável talento para fábulas e alegorias. Em sonho, o escritor-narrador pega um ônibus numa tarde chuvosa e dá início a uma viagem inacreditável, atravessando Céu e Inferno.
No caminho, encontra-se com seres sobrenaturais, que fogem a tudo que ele já vira, e chega a conclusões significativas sobre as conseqüências inevitáveis do comportamento humano. É o ponto de partida para uma profunda reflexão sobre o bem e o mal. Se insistimos em conservar o Inferno (ou mesmo a Terra) não veremos o Céu; se quisermos o Céu, não guardaremos a menor, nem a mais familiar recordação do que seja o Inferno.
“Como eles chegam aqui, afinal?” perguntei ao meu Professor.
“Já vi gente desse tipo ser convertida”, respondeu, “enquanto aqueles que você poderia pensar que estivessem menos condenados voltaram. Os que odeiam o bem estão algumas vezes mais perto do que os que nada sabem a respeito dele e julgam conhecê-lo.”
“Quieto agora!” disse derepente o Professor. Estávamos de pé junto a uns arbustos e além deles vi um dos Sólidos e um Fantasma, que se tinham encontrado aparentemente naquele momento. A aparência do Fantasma era vagamente familiar, mas logo descobri que o que vira na terra não tinha sido o homem em si, mas fotografias dele nos jornais. Tinha sido um artista famoso.
“Deus!” exclamou o Fantasma, olhando ao redor para o cenário.
“Deus, o quê?” perguntou o Espírito.
“O que quer dizer, ‘Deus o quê?” inquiriu o Fantasma.
“Em nossa gramática Deus é um substantivo.”
“Oh — compreendo. Eu só queria dizer ‘Puxa!’ ou algo parecido.
Estava me referindo… bem, a tudo isto. É…. é…, gostaria de fazer um quadro, de pintar isto.”
“Eu não me preocuparia com isso no momento se fosse você.”
“Escute, aqui não é permitido que a pessoa continue pintando?”
“Você tem primeiro de olhar.”
“Mas, já olhei. Já vi o que quero fazer. Deus! — Gostaria de ter trazido meu material comigo!”
O Espírito sacudiu a cabeça, espalhando luz de seus cabelos ao fazer isso. “Esse tipo de coisa não adianta aqui”, disse ele.
“O que está querendo dizer?” perguntou o Fantasma.
“Quando você pintava na terra — pelo menos nos primeiros anos — era porque apanhava vislumbres do Céu no cenário terreno. O sucesso de suas pinturas foi porque você capacitou outros a apreciarem também os vislumbres. Mas aqui está você com a coisa em si. E daqui que as mensagens são enviadas. Não adianta nos contar sobre este país, pois nós já o vemos. De fato, podemos vê-lo melhor do que você.”
“Então nunca vai adiantar nada pintar qualquer coisa aqui?”
“Não quero dizer isso. Quando você tiver se transformado numa Pessoa (tudo bem, nós todos tivemos de passar por essa fase) haverá coisas que você perceberá melhor do que qualquer outra pessoa. Um de seus desejos será contar-nos a respeito delas. Mas não ainda. No momento o seu dever é olhar. Venha e veja. Ele é infinito. Venha e se alimente.”
Houve uma pequena pausa. “Isso será ótimo”, falou então o Fantasma numa voz entediada.
“Venha então”, disse o Espírito oferecendo-lhe o braço.
“Em quanto tempo você acha que eu poderia começar a pintar?” perguntou o outro.
O Espírito deu uma risada. “Não percebe que jamais pintará se for isso que estiver pensando?”
“Não entendo.”
“Olhe, se estiver interessado no país apenas por causa da pintura, jamais aprendera a vê-lo.”
“Mas é justamente assim que um verdadeiro artista está interessado no país.”
“Não. Você se esquece”, disse o Espírito, “que não foi assim que começou. A luz em si foi o seu primeiro amor: você amou a pintura apenas como um meio de falar sobre a luz.”
“Oh, isso foi há séculos”, disse o Fantasma. “A gente supera isso.
Você naturalmente não viu meus últimos trabalhos. Acabamos nos interessando mais e mais na pintura pela própria pintura.”
“De fato. Eu também tive de sair dessa. Tudo não passava de uma armadilha. Tinta, cordas de instrumentos musicais e pintura eram necessárias lá embaixo, mas elas são também estimulantes perigosos. Todo poeta, músico e artista, se não fosse pela Graça, seriam afastados do amor das coisas de que falam, para o simples amor das palavras até que no Inferno Profundo, não mais se interessem por Deus de modo algum mas apenas naquilo que dizem a respeito dEle. Pois a coisa não pára no interesse pela pintura, você sabe. Eles afundam mais — ficam obcecados pelas suas próprias personalidades e depois por mais nada além de suas reputações.”
“Não acho que me enquadro muito nessa descrição”, afirmou o Fantasma com certa formalidade.
“Isso é excelente”, disse o Espírito. “Poucos dentre nós tinham superado essa mentalidade quando chegamos. Mas se perdurar qualquer parcela dessa inflamação, ela será curada quando você chegar à fonte.”
“Que fonte é essa?”
“Fica lá no alto das montanhas. Muito fria e clara, entre duas colinas verdes. Quando tiver bebido dela irá perder para sempre qualquer senso de propriedade sobre as suas obras. Irá apreciá-las como se fossem de outra pessoa: sem orgulho e sem modéstia.”
“Parece-me ótimo”, disse o Fantasma sem entusiasmo.
“Bem, venha”, replicou o Espírito, e durante alguns passos ele apoiou a sombra vacilante em direção ao leste.
“Naturalmente”, murmurou o Fantasma, como se falando consigo mesmo, “sempre haverá pessoas interessantes para se conhecer. .
“Todos são interessantes.”
“Oh — isso — sei que é certo. Mas estava pensando em pessoas de nossa própria classe. Vou conhecer Claude? Ou Cézanne? Ou…”
“Mais cedo ou mais tarde, se estiverem aqui.”
“Então você não sabe?”
“Naturalmente que não. Só estou aqui há uns poucos anos. São poucas as oportunidades para encontrá-los… há muitos de nós, sabe.”
“Mas, certamente, no caso de pessoas famosas, teria ouvido falar.”
“Elas porém não são famosas. Não mais do que as outras. Não compreende? A Glória flui em direção a todos, e de volta de cada um. A luz é que é a coisa.”
“Está querendo dizer que não existem homens de renome?”
“Todos são famosos. Todos são conhecidos, lembrados, reconhecidos pela única Mente que pode fazer um juízo perfeito.”
Oh, naturalmente, nesse sentido…” disse o Fantasma.
“Não pare”, falou o Espírito, procurando levá-lo ainda adiante.
“Devemos então contentar-nos com a nossa reputação entre a posteridade”, disse o Fantasma.
“Meu amigo, você não sabe?”
“Sei o quê?”
“Que você e eu já fomos completamente esquecidos na terra?”
“Eh? o que disse?” Exclamou o Fantasma, desvencilhando o braço.
“Está insinuando que aqueles malditos neoregionalistas venceram afinal?”
“E isso mesmo!” afirmou o Espírito, sacudindo-se novamente de riso, e espargindo luz. “Ninguém daria nada por qualquer quadro meu ou mesmo seu na Europa ou na América hoje. Estamos completamente fora de moda.”
“Preciso ir-me imediatamente”, replicou o Fantasma. “Solte-me! Diabos, tenho meu dever quanto ao futuro da Arte. Preciso voltar aos meus amigos. Tenho de escrever um artigo. Vamos fazer um manifesto. Vamos começar um jornal. Conseguir toda publicidade que pudermos. Solte-me. Isto não é brincadeira!”
E sem esperar pela resposta do Espírito, o espectro desapareceu.

Esse livro é muito, muito bom.
Me lembra a parábola do Rico e Lazáro.. Enquanto cada vez mais Rico ele era, menos ele era uma pessoa.. A ponto que um dia não restou dele nem mesmo o nome, ficando assim a existir apenas ‘Rico’…
E como disse a Lucy, é um livro muito bom!